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Travessia do Deserto e Reversão

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Em uma entrevista, Robert Plant afirmou que Kashmir era uma das suas canções favoritas dos tempos do Led Zeppelin, sendo particularmente muito positiva do ponto de vista lírico. Além de concordar com o gigante do rock, acrescentaria que a versão a cappella da cantora yemenita Ofra Haza (1957 – 2000) terminou de colocar tudo nos eixos.

Apesar de constituir o nome de uma região indiana, Kashmir foi composta por Plant durante uma viagem pelo Saara. Mas é claro que qualquer explicação minuciosa sobre o seu histórico jamais conseguiria descrever a dimensão de uma obra que versa sobre uma das metáforas mais profundas da existência: o deserto como percurso da consciência humana.

O processo de interiorizar-se passa pela desertificação do mundo exterior. Esse é o desafio de quem não carrega provisões, porém preserva a face aberta e se reconhece como um viajante do tempo/espaço.

Tudo que vejo torna-se castanho à medida que o Sol
Queima a Terra e meus olhos enchem-se com areia,
À medida que examino esta terra devastada

Tentando descobrir, tentando descobrir onde eu estive

Para retornar ao seu ponto zero, seu local real e presente, ele precisa atear fogo – no sentido da percepção, e não no sentido material!  –  em tudo o que vê.  Ou seja, é necessário reduzir a cinzas o objeto dos seus sentidos – até dar-se conta da devastação do mundo exterior e chegar a um encontro profundo consigo mesmo.

Talvez ele tenha completado a travessia ao perceber que não havia distância espacial, sequer temporal. Aquele percurso era apenas um vácuo na sua consciência entre o que ele acreditava que não fosse ele e o que ele era de fato. Apenas uma mudança de percepção e paradigma – enfim, uma reversão de consciência. O que está dentro como o que está fora.

Kashmir

Estrelas preencherem meus sonhos
Oh, sim, eu estive voando…

Sou um viajante de ambos, tempo e espaço,
Para estar onde eu estive.

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Ancestralidade

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Existem canções ancestrais. Temas recorrentes. Perguntas que não calam há séculos. Versos que já rondavam as velhas tribos do Mediterrâneo. Mas até hoje o coração escuta e vibra com aquilo que seria uma simples audição dos sentidos.

Ehye Asher Ehye (ou Ehyeh Asher Ehyeh) é um exemplo de notas assim, seja na voz da saudosa Ofra Haza, seja em versões mais recentes.